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ELA SE FOI SERENA. COMO SEMPRE FOI POR TODA SUA VIDA

2009

 

 

Naquela noite eu não tive um sono tranqüilo. A cama do hotel era confortável, a temperatura amena, mas algo me agitava.

Brasília amanheceu com céu azul e o sol brilhante. Aquele era um dia de festa para o nosso segmento. E logo eu, que tanto queria fazer parte dessa festa, não me sentia feliz naquela manhã.

Desci então para a refeição matinal. De repente, um telefonema!!

Minha filha, em prantos, quase não conseguia falar. Ouvi apenas uma das suas frases: “Pai, minha avó se foi”.

Por alguns instantes, confesso que fiquei sem compreender de quem ela falava. Foi quando caiu a “ficha”. Minha amada mãe, que eu tinha beijado pouco tempo atrás, antes de viajar, tinha nos deixado para sempre.

Atônito, levantei e saí do restaurante vagando pelos corredores do hotel, sem imaginar o que fazer. O sentimento de impotência invadia minha mente e antes de telefonar para meus familiares em Salvador, para saber das providências que estavam sendo tomadas, toda a minha existência, ao lado da minha amada mãezinha, passou em minha mente como se fosse um filme. O melhor filme da minha vida.

Eu estava com a farda do Salesiano, subindo a ladeira de Nazaré, seguro por suas mãos firmes me levando para o colégio. Também me vi subindo no banco da cozinha, no Dia das Mães, cantando para ela e vendo suas lágrimas rolarem de emoção, aquela canção da Ângela Maria: “Ela é a dona de tudo, ela é a rainha do lar. Ela vale mais para mim, que o céu, que a terra e o mar. Ela é o tesouro dos pobres, que a mão do Senhor escolheu.....”. Os mais antigos se lembram dessa linda canção. Ela adorava me ver cantar essa música.

Vi-me chegando dos “babas”, todo sujo de lama, ofegante, suado e ela me beijando e me levando para o banho. Vi-me sonolento na cama e ela fiscalizando todo o meu corpo para ver se tinha alguma contusão; e no meio de uma briga generalizada em clube carnavalesco, vi também minha mãezinha enfrentando policiais e tentando me tirar da confusão, que eu mesmo criei.

Ah! Minha velha, como uma pessoa tão serena, que eu nunca vi falar mal de ninguém, que nunca vi brigando com ninguém, poderia, naquele momento, se transformar em uma leoa enfurecida em defesa do seu filhote abusado?

Vi-me ainda apreciando a forma como ela foi dedicada à minha filha, durante muitos anos, confortando-a quando ela chorava ao cair machucada e até mesmo quando adolescente, quando chorava por ter brigado com o namorado.

“Coroa”, como era chamada por todos que a conheciam e a amavam, foi uma mulher serena. Com pouca instrução, porém sábia ao conduzir a vida. Viver sorrindo e brincando como uma eterna criança era sua maneira de enfrentar os dissabores do dia-a-dia.

Ela foi chamada aos reinos do céu, dormindo serenamente, como sempre viveu.

Hoje, saudoso, porém conformado por ela ter tido uma passagem sem sofrimento, entendo porque ela se foi quando eu estava distante.

Tenho certeza que ela me poupou do dissabor de vê-la partir. Ela já sabia que aquele beijo que lhe dei antes de viajar era a nossa despedida.

Minha mãezinha. Sei que se encontra em bom lugar pela pessoa que foi, mas a dor da saudade ainda corrói meu peito.

E como finalizava aquela canção da Ângela, “quem me dera outra vez, mamãe, começar tudo, tudo de novo”.

 Aos meus amigos, que me confortaram com suas doces e sinceras palavras naquele momento tão difícil, digo que essa foi a forma que encontrei para me despedir e homenagear a minha amada mãe.

Agradeço a todos que me confortaram e que ajudaram a minha família naquele momento de dor.

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