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MALEMOLÊNCIA OU RACISMO

 

 

 2008

                 Escrevo, faltando alguns dias para o inicio do que é, para mim, a maior festa do mundo: o Carnaval de Salvador.

Conhecedor e fã dessa maravilhosa festa (posso afirmar que sou um autêntico folião) fico a pensar sobre fama de o baiano ser festeiro, porém preguiçoso, malemolente e outros adjetivos preconceituosos. Festeiro sim. Preguiçoso ou malemolente, nunca. Contesto a visão de que os moradores das cidades baianas vivem em clima de “festa eterna”. Existem teses defendidas por professores de antropologia, de que o povo baiano é alegre, festeiro, porém é muitas vezes mais eficiente que o trabalhador de outras regiões do País. A diferença é que o baiano, principalmente os soteropolitanos (nascidos em Salvador), conseguem trabalhar e se divertir ao mesmo tempo, o que é bastante saudável.

Os estudos comprovam que é justamente no período de festas que o baiano mais trabalha, pois são nesses eventos sazonais que aumentam as oportunidades de serviços. Há até quem diga que o baiano trabalha no Carnaval e o turista é quem se diverte. Concordo em parte com isso, pois vejo o pessoal trabalhando nas ruas, porém sem deixar de pular e rebolar na passagem dos trios elétricos.

Segundo os antropólogos, a fama da preguiça baiana foi trazida pela elite portuguesa, que considerava os escravos indolentes e preguiçosos, devido as suas expressões faciais de desgosto e a lentidão na execução do serviço (alguém trabalha bem – humorado em regime de escravidão?). Depois, se espalhou de forma pejorativa, pelo Sul e Sudeste, a partir das migrações da década de 40. Quem chegava do Nordeste virava “baiano”. E era chamando de preguiçoso, o que denegria a imagem dos trabalhadores nordestinos, taxando-os de desqualificados e estabelecendo fronteiras simbólicas entre dois mundos como forma de “proteção”.

Artistas baianos, como Dorival Caymmi, Caetano Veloso e Gilberto Gil, foram responsáveis pela popularização dessa imagem, pois desenvolveram discursos e adotaram atitudes tentando diferenciar o baiano de outros povos brasileiro.

Hoje, Caetano se contradiz quando vende outra imagem e diz: A fama não corresponde à realidade.Eu trabalho muito e vejo pessoas trabalhando na Bahia como em qualquer lugar do mundo”. Aliada a tudo isso, a preguiça baiana foi divulgada pelo pessoal de turismo, que usa essa imagem para vender uma idéia de lazer permanente em Salvador.

Só que Salvador se tornou a terceira capital do País e um dos principais pólos industriais com um ritmo tão urbano quanto o das demais grandes cidades brasileiras, graças ao ímpeto, à competência e ao espírito trabalhador do baiano.

O maior pólo petroquímico do País está na Bahia, assim como o maior pólo industrial do Norte e Nordeste, que cresce de forma tão acelerada que, em cerca de 10 anos, será o maior pólo industrial na América Latina.

Poderia citar aqui centenas de outros exemplos da Bahia trabalhadora, porém não tenho mais tempo. Afinal, amanhã, 17 de janeiro é a “Lavagem do Bonfim” e ,como todo bom baiano, tenho que arrumar minha roupa branca para seguir o cortejo religioso e também profano, porém maravilhoso.

Em tempo:trabalhei o ano inteiro para curtir esse dia.

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