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A BAHIA JÁ TEVE SEU “PELÉ”

2004

 

Subo a Ladeira da Fonte Nova. Lá em cima o semáforo avermelha. Paro. Naquele momento vem à mente recordações: estudantes barulhentos das escolas de Dona Anfrísia, Severino Vieira e do Salesiano, atravessam a rua. Muita algazarra, risos, o som da juventude e aquele militar de calça caqui, quepe, cinto e coldre brancos povoam naquele momento a minha mente cansada, irritada pelo trânsito caótico e cruel da nossa cidade.

Momentos de saudosismo? Sim. Às vezes é gostoso.

Lembrei com muita saudade, da figura lendária do “Guarda de Trânsito”. Em todas as esquinas da cidade. O guarda de trânsito, também conhecido como “o guarda do meu bairro”, controlava com galhardia o trânsito, auxiliava na travessia de crianças e idosos com muito carinho, acudia acidentados. Isso tudo sem deixar o trânsito embolar.

Militares educados e competentes que desempenhavam seu labor sempre nos mesmos locais, criando identificação com os moradores, tornando-se íntimos daqueles a quem protegia.

Quem da minha geração, não lembra com carinho e saudades dessas figuras, às vezes até folclóricas? Quem não se lembra do “Guarda Pelé”, ou do guarda “Princesa Isabel” e de tantos outros que, em cada bairro de Salvador, disciplinava o trânsito com amor, procurando sempre tomar medidas preventivas (e assim deve ser) evitando dessa forma, acidentes.

Permita-me leitor, escrever um pouco sobre um desses policiais, cuja imagem tenho até hoje na memória. O “Guarda Pelé”. Isso mesmo, a Bahia também teve o seu “Pelé”. De estatura mediana, cor negra, corpo atlético, “Pelé” (nunca ninguém soube seu verdadeiro nome. Dizem que era Armando), dava um toque sutil de elegância ao apitar e fazer pararem os carros para os passantes atravessarem as ruas. Tinha uma performance personalizada. Seus gestos que pareciam espalhafatosos eram admirados e de grande utilidade no trânsito.

Chamava mesmo a atenção. Era comum em nossa cidade avistarmos uma aglomeração em alguma esquina. Era ele, o “Pelé” tendo seu trabalho apreciado por dezenas de pessoas. Parecia um mágico. Aqueles simples silvo e os braços em movimentos rápidos imprimiam uma confiança inabalável nos transeuntes. Muito mais que os semáforos automatizados de hoje. Era como ele, de repente, se transformasse numa muralha de concreto. Todos os respeitavam e faziam questão de cumprimentá-lo. Ele conseguia a proeza de ser onipresente. Estava em várias esquinas durante o dia.

O seu trabalho ficou conhecido até no “estrangeiro”, como o baiano falava na época. Sua performance e seu carisma atravessaram fronteiras e lhes renderam reportagens em jornais e revistas, até mesmo nos Estados Unidos, que o convidaram a mostrar seu trabalho em esquinas das cidades americanas.

Aquele baiano, simples e humilde, voltou para as ruas de Salvador, depois de fazer corar, o pessoal da terra do “Tio Sam”, desembolando o trânsito complicado de cidades americanas.

E “Pelé”, como tantos outros ilustres conterrâneos, despediu-se deste mundo, pobre, pois seu trabalho só era reconhecido pelo povo e pela imprensa.

Hoje, os semáforos ocuparam o, lugar de guardas como o nosso saudoso “Pelé”. Passamos a ser guiados apenas por luzes. Sem falar na famigerada SET. Estacionados em locais de difícil visualização, dois sonolentos e arrogantes prepostos de roupas tão cinzas quantos suas mentes se interessam apenas em flagrar motoristas faltosos, punindo-os com multas. Não existe mais o contato humano. As máquinas e o interesse em faturar tomaram o seu lugar. Para eles ´[e mais fácil aplicar multas do que prevenir acidentes.

Infelizmente, marchamos na direção de um mundo rico em tecnologia, mas pobre em amor ao próximo.

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