Text Size
   

UMA VIGILÂNCIA ENFERMA

2004

 

Conta-se que na idade média, o cidadão quando febril, delirante, pernas avermelhadas e inchadas, ia parar na fogueira. Era queimado vivo,, pois os curandeiros acreditavam que o mesmo estivesse possuído pelo fogo do inferno, ou seja, pelo satanás. As pessoas que eram acometidas desse mal, ao sentirem os sintomas se escondiam ou fugiam para locais desertos e sucumbiam solitários.

Até que certo dia, o Rei de uma grande cidade sentiu queimar a pela e um forte calor em todo seu corpo. Chamado, o curandeiro foi logo diagnosticando: É a nossa majestade, mas temos que queimá-lo. “O diabo se apossou do nosso monarca”.

Por se tratar de um Rei, o senado levou o veredicto para o povo que, em praça pública, resolveu queimar dessa vez o curandeiro. Afinal o homem era o Rei.

Queimado o curandeiro, o Rei ficou curiosamente curado.

Essa é a história (juram que é verídica) de uma doença chamada erisipela. Trata-se de um mal muito antigo que insiste ainda em nossos dias em atacar grande parte da população mundial. Palavra grega, erisipela, quer dizer “fogo na pele”.

E porque estou escrevendo sobre isso?

Acordei na última segunda-feira, sentindo uma íngua na região da virilha. Pensei! Que será? Nem bebi nesse final de semana! Vá ver que foi por isso. Logo após, uma tontura e um calafrio no corpo inteiro. Senti-me no interior de uma geladeira e corri para o hospital.

Já cheguei tonto, febril, delirante e a perna queimando. Pensei; “ainda bem que descobriram a benzetacil, senão hoje teria virado churrasquinho! Afinal nunca fui um Rei, nem nos bábas lá do bairro.

Rápido atendimento, agradável recepção das enfermeiras da emergência, uma maca e aquela ardente agulhinha na veia. Ainda tonto, vejo que a médica me examina de maneira tão carinhosa, que quase me deixa apaixonado, e autoriza a aplicação da temível “benzetacil”. Lamentei ouvir esse nome, porém lembrei logo da fogueira e o abençoei.

Adormeci. Ao acordar, comecei a observar a movimentação no interior da emergência e nesse momento, apesar de enfermo, me veio à mente o assunto segurança. Vi a necessidade daquele lugar em se preocupar mais com, a segurança das suas instalações, dos pacientes, médicos, enfermeiros e visitantes.

Lembrei da facilidade que adentrei no hospital e pude perceber que não existiam dificuldades também no acesso à enfermaria. Comentei, e a auxiliar de enfermagem, risonha, como toda boa baiana, me informou que era assim em todos os hospitais da cidade em que trabalhou. Segurança mesmo, somente para os bandidos feridos e que a polícia mantém seus homens nas portas dos quartos e enfermarias protegendo-os de qualquer tentativa de agressão ou principalmente de fuga.

É claro que o poder público não pode colocar policiais em todos os hospitais, não temos contingente nem para atender a população nas ruas. Porém existem outros meios de prevenção. Existe a segurança privada contratada, a segurança orgânica (formada por empregados do hospital) e a segurança eletrônica. Será que os administradores dessas casas de saúde não conhecem esses serviços? Talvez já tenham pelo menos ouvido falar. Ou será que acreditam que segurança é despesa. Estão enganados. É investimento. Como? Sem nenhuma segurança especializada como acontece hoje, os riscos são muito grandes. Pacientes e quadro funcional do hospital, indefesos podem ser atacados e mortos por qualquer pessoa que tenha a intenção ou interesse em eliminar um interno. Quanto custa uma vida? Quanto poderia gastar um hospital, caso os parentes desses pacientes viessem acioná-lo por falta de cuidado ao mesmo? Sem considerar possíveis assaltos, pois, a maioria dos hospitais baianos possui caixas bancárias. E o que poderia acontecer no interior de uma casa de saúde em uma dessas ocorrências?

E aí empresários hospitalares? Vamos continuar somente dando segurança aos bandidos feridos?

alt 

Busca no site