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CHAMEM O LADRÃO

 

2005

 

Na minha adolescência, fiz o curso ginasial em um colégio de padres, que além de estimular a prática de cânticos religiosos, fazia-nos cantar hinos patrióticos, como o Hino Nacional Brasileiro e o Hino da Bandeira.

Jovens, cheios de saúde e vigor, abria-mos o peito e cantávamos com galhardia e emoção aquelas lindas obras musicais. Confesso, que, às vezes, eu chegava a derramar lágrimas de emoção. Achava bonito aquele coral e tinha no peito um forte sentimento de patriotismo. Admirava as cores da nossa bandeira, sentia amor pela pátria e pensava viver para sempre dedicando esse nobre sentimento a minha nação.

Naquela época, conhecida como “anos dourados”, eu confiava nos políticos, idolatrava artistas de rádios e os clubes de futebol que possuíam jogadores geniais. Era pura emoção, estivesse eu na platéia de um comício em praça pública, nos estádios de futebol ou até mesmo nos auditórios de rádios.

O tempo passou e pude constar uma realidade bem diferente. Percebi que a forma de fazer política estava se modificando. Os candidatos que durante as campanhas eleitorais faziam promessas mirabolantes, quando vitoriosos, viravam as costas para a massa e logo no primeiro mês de mandato já pensavam nas reeleições.

Mas eu ainda nutria esperanças.

Pensava sempre, que nas próximas eleições surgiriam homens sérios, competentes e comprometidos com a nação. Ledo engano. As coisas foram piorando. E as decepções oram aumentando até chegar a nossos dias de medo e desesperança.

Volto um pouco no tempo. Volto para lembrar, que, além dos políticos confiávamos muito nas pessoas que exerciam profissões ilustres como a de Juiz. Para mim, Juiz era símbolo de moralidade, respeito e acima de tudo de justiça. E os sindicalistas? Assistia a inflamados discursos nas portas das fabricas e ficava a admirar aqueles operários, que, corajosamente enfrentavam os poderosos empresários em defesa dos trabalhadores.

Tinha ainda, a maior alegria do povo. Ia aos estádios e assistia equipes maravilhosas, craques geniais suando suas camisas. Os dirigentes eram amadores e amantes dos clubes e sem nenhuma remuneração. Pelo contrário, tiravam do próprio bolso para custear despesas do clube de coração. Era gostoso vibrar nas arquibancadas com lances dos gols do Bahia, Vitória, Flamengo, Vasco, Botafogo, Corinthians e muitos outros. E era tudo nivelado, mas por cima. Retorno aos dias de hoje. O que fez o juiz “lalau” deixou-me estarrecido. O pior foi descobri que não foi somente ele que se aproveitou da sua posição para surrupiar o povo. Conheço situações de arrepiar os cabelos envolvendo outros juízes.

Dias atrás, deparo-me com notícias sobre inúmeros crimes do colarinho branco. Crimes cometidos por políticos pregam ética e moralidade. É assustador. Será que Regina Duarte “a namoradinha do Brasil” estava com a razão? O medo venceu a esperança?

Ainda nos jornais, pasmo em saber das denúncias de empregados dos sindicatos de empregados. Uma página inteira de afirmações com a manchete “Casa de ferreiro, espeto de pau”. Mais denúncias. Empregados –que trabalham em sindicatos laborais – sofrem com os dirigentes das entidades tudo aquilo que esses dirigentes condenam nas portas de empresas e fábricas.

Restava a alegria em ver nossos times de coração nos estádios. Mas eles também? Dirigidos por “cartolas” pessoas despreparadas e interessadas apenas em ganhar milhões, estão a cada dia que passa se afundando em dívidas. Estão acabando com o futebol brasileiro. Com raras exceções, quais os torcedores ainda ostentam com orgulho camisas dos seus clubes de coração? Nossos poucos craques estão além-mar. As partidas transmitidas pela TV são verdadeiras peladas ou “bábas” como são conhecidas na Bahia, de várzea com uma diferença. Na várzea os atletas jogam com amor.

Em quem acreditar? Como, passar para nossos filhos, sobrinhos e netos, mensagem de confiança e amor à pátria?

Decepcionado e sem ter em quem confiar, lembrei daquela música do poeta-cantor. Mas não quero chamar o ladrão.

 

 

 

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